CIÊNCIA E METAFÍSICA: UMA NOVA ABORDAGEM

01-03-2017 12:30

Ao analisar os escritos dos filósofos gregos da Antiguidade, principalmente os que vieram depois de Sócrates, percebe-se que na construção de seus raciocínios, esteve presente, quase que em todo o momento, uma abordagem tomada por vias claramente metafísicas, onde para se falar a respeito de um determinado tema qualquer, utilizava-se mais a “especulação” imaginativa, buscando sempre a essência de um “mundo das ideias”, do que uma provável “exatidão” acerca dos fatos e objetos, que poderiam ter sido melhores descritos e estudados, caso tivessem sido simplesmente observados com mais atenção, e também, se caso tivessem tido algum valor para os pensadores da época.  Esse “método” que evoca uma abordagem mais empirista em relação a uma puramente abstrata, ou com aspectos que envolvem abstração, é característico dos filósofos e cientistas “pré-socráticos”. Basta ler a respeito da história de Tales de Mileto para perceber o “toque” empirista de seu “método” em várias ocasiões. 

O desprezo por uma abordagem empírica no ramo da ciência antiga da academia deveu-se talvez pelo fato, de que as discussões intelectuais que vigiavam na época de Platão, iam ao encontro da abstração, que para existir e provar-se verdadeira, não necessitava (e continua não necessitando) de nenhuma observação que corroborasse para a sua demonstração. Nem ao menos precisava ser demonstrada na realidade!

Muitas das afirmações feitas nesse período, não passaram de meros construtos, que, ao longo da história do desenvolvimento da razão e do pensamento científico, mostraram-se assaz prejudiciais, ao invés de continuarem servindo de base para argumentação e debate nas disciplinas específicas das quais os pensadores dedicaram-se a discorrer e dialogar sobre, tornaram-se extremamente contraditórias e passaram a ser tidas como completamente obsoletas.

Um dos primeiros críticos “formais” do velho Platão foi seu mais proeminente aluno Aristóteles, que se destacou em várias das matérias lecionadas na academia. Nessa crítica redigida ao “mestre”, Aristóteles tinha como foco principal, o fato de seu instrutor não levar em consideração a devida importância que o empirismo tinha como a parte fundamental do processo final de confirmação das ideias científicas tomadas a priori a partir do raciocínio lógico dedutivo. Ou seja, a observação serviria como a primeira aliada, o mais importante instrumento de aquisição de conhecimento capaz de auxiliar o pensador em questão, a discernir sobre as conclusões a respeito dos fatos ou objetos, ao qual este propôs a analisar. Uma perspectiva como essa levou Aristóteles a afirmar que “não há nada no intelecto, que antes não tenha passado pelos órgãos dos sentidos”. O descaso de Platão para com a capacidade de observação da natureza forçou Aristóteles a abandonar os estudos na academia criar seu próprio centro de estudos.

Se levássemos a perspectiva platônica aos dias atuais, como uma forma de tentarmos entender melhor o que acontecia especificamente nessa época, e que tipo de “método” científico era considerado válido de acordo com as regras vigentes, teríamos de seguir pelo seguinte caminho: analisemos, como se fossemos alunos da academia, a disciplina da biologia como um todo, para então respaldá-la de acordo com aquilo que nós entendemos por ciência, e também, de acordo com aquilo que nós racionalizamos como sendo o “método” que permeia a nossa investigação e especulação metafísica sobre as propriedades do mundo. Já que o que nos importa como objeto de investigação é simplesmente aquilo que não está neste mundo, mas sim, tudo aquilo que está contido no “mundo das ideias”, e a biologia se propõem a estudar os animais e a natureza na sua forma “primeira”, sendo estes encontrados apenas no “mundo sensível” e em nenhum outro mais, a biologia é, portanto, um ramo do conhecimento inferior, desnecessário e mesquinho que nós não temos a necessidade de nos importarmos. Para a época de Platão uma afirmação como esta seria tida como válida. Mas felizmente isso não durou por muito tempo!

A disparidade existente entre Platão e Aristóteles é evidente em muitos pontos de suas maneiras de se fazer e pensar cientificamente, incluindo o ramo da biologia, que este último foi responsável por fundar a partir da proposta da primeira classificação sistemática das plantas e animais. Apesar disso, Aristóteles também não deixou de se ligar a metafísica em alguns momentos para especular sobre assuntos dos quais ele só detinha um conhecimento meramente especulativo e inexato, cometendo erros tão crassos quanto os de Platão, e prejudicando por muitos séculos os pensadores posteriores a si, e as disciplinas que foram surgindo e ganhando autonomia mediante o grande acúmulo de saberes. Do ponto de vista iconográfico, essa discussão fica evidentemente representada, no quadro do pintor renascentista Rafael Sanzio intitulado de “Escola de Atenas”, pintado entre 1509 e 1511.

Na Renascença, a perspectiva científica aristotélica mudou muito por causa da crítica favorável que Galileu empreendeu em relação aos conhecimentos que emanavam dos livros do filósofo grego, relidos e reinterpretados na Idade Média. Conhecimentos, que, para a época mostravam-se deveras ineficazes e ultrapassados, tanto com relação às coisas que concerniam à argumentação empirista, quanto às especulações do ramo da ontologia aguardando por renovação. Felizmente, essa renovação foi bem sucedida e produziu bons frutos, dos quais não só Galileu pôde colher.

Percebe-se até agora, que graças à atividade cética utilizada com inteligência, aliada a uma vontade por parte de seres racionais que se dispõem a análise e debruçam-se sobre os fatos e os livros (infelizmente são poucos que a fazem), as mais variadas disciplinas, que envolvem o conhecimento produzido única e somente pelo homem, são capazes de avançar.  

Aqui é pertinente que eu retome uma tese minha de outro texto que publiquei, intitulado de Teses sobre a razão e os humanos, para tentar explicar, a meu ver, por que existe na ciência, às vezes, o desprezo, o reajuste, a reformulação ou mesmo a criação de ideias totalmente inéditas, aquelas com que a maioria das pessoas ainda se surpreende pela originalidade.

I

Nem tudo o que é possível é preciso, mas tudo o que é preciso, de alguma maneira, acaba tornando-se possível. Seja mediante avanço, ou mediante retrocesso na história.        

De acordo com os contextos históricos que expus aqui, principalmente no que se refere à disputa entre o velho Platão e o discípulo (e também mestre) Aristóteles, percebe-se que sempre, as críticas feitas posteriormente à realização de algum trabalho ousado e inovador no campo do saber, servem como uma espécie de mediação criada pelos próprios seres humanos pensantes e produtores de conhecimento, para se situarem de forma lógica e coerente, no “mundo” no qual estão tentando compreender e sistematizar, para que a vida com um todo, ganhe algum sentido, e depois se possa fazer um uso quase que vital desse sentido. É uma questão de vida ou mote!         

O retrocesso histórico, que é um dos alicerces que devem ser inabaláveis nesse contexto, é como pode ser compreendido em minha tese primeira, no retrocesso que Aristóteles teve de fazer a Platão para então criticá-lo e ajustar suas ideias as suas novas convicções sobre os assuntos dos quais os escritos do velho mestre acadêmico tratavam (separação dos mundos, “origem” do universo etc.).       

O avanço, que pode parecer contraditório tanto na citação quanto na aplicação real de minhas ideais, por ser abordado algo do qual ainda não se conhece ou que nem ao menos aconteceu para que se tenha certeza de como será, e então poder criticar-se tal ponto de vista, pode ser compreendido como, no caso deste presente texto, como as especulações ontológicas realizadas por físicos e filósofos em busca da essência dos objetos. O objetivo maior de entender aquilo que está por trás do que enxergamos (relações de causa e efeito, causa que tentam forçar efeitos, etc.), as previsões da realidade feitas com base em paradigmas teóricos adotados por determinadas comunidades científicas. A título de exemplo, as disputas intelectuais ocorridas nos séculos XVIII e XIX a respeito dos modelos teóricos que vigiavam nos ramos das ciências da natureza, cartesianismo e newtonianismo, onde este último, por meio de suas equações nos permite predizer o futuro. Seja no momento de quantificar uma dada pressão no instante t2 (depois do instante inicial que ainda não ocorreu, ou seja, no “futuro”, pois de acordo com o ponto de vista determinista, o futuro está intimamente ligado com o passado), prever e ajustar a posição exata de órbitas planetárias, etc. Poderia citar aqui, uma série de tentativas de avanços históricos, todos em direção futuro...

Isso me leva a outro “canto”. Será que existe razão na pergunta epistemológica de indagar “o que é possível conhecer?” A meu ver, não há. Pois percebo que seria muito mais favorável para espécie humana, pelo menos para a parte racional e pensante dela, que ao invés de estacionar em um determinado momento aleatório da história, se perguntando se é possível ou não conhecer o objeto do conhecimento, simplesmente dever-se-ia esforçar-se para conhecer o objeto, o fato ou a ideia abstrata, para que depois, finalmente, indagar-se se é preciso ou não que o novo conhecimento agregado, após esse processo, entre em vigor para ser utilizado de maneira favorável, ou não. Primeiro precisamos aventurar-nos em conhecer, depois, caso seja necessário, se este conhecimento não passe por testes empíricos, rejeitamos ou “guardamos” para outro momento, e então, recomeçamos o processo. Acima de tudo, com isso, evitamos todas as maneiras de dogmatismo. Assim não há como entrar em seu “ciclo vicioso”.

A ciência precisa de metafísica? Sim

É “norma” para a ciência utilizar-se de todas as formas de metafísica, assim como de suas conclusões? Não, afinal com isso não existiria o conhecimento. E para a ciência não é obrigatório que se utilize de todos os produtos da especulação metafísica. Só os que se mostram forçosamente precisos.

 

Autor: Engel

Engel é um pensador! Um “pensador autônomo” e não “autômato”. O que isso significa? É óbvio que todos nós, humanos e seres sociais, somos influenciados pela história e pelo meio em que vivemos e, também, influenciamos diretamente nele. O que, por si só, coloca em dúvida a questão da “autonomia de pensamento”. Pois bem. A expressão “pensador autônomo” é aqui utilizada para enfatizar que Engel procura fugir (Se possível há) da superficialidade das “ideias verdadeiras”, investigando-as, contextualizando-as e refletindo sobre a originalidade e o impacto delas nos tempos atuais, à revelia do que hegemônico no mundo contemporâneo: o “pensamento autômato”, com absorção e reprodução sem a devida contestação. É a esse rigor de produção de conhecimento a que se propõe o jovem intelectual provocador.

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