DONALD TRUMP E O RETORNO AO SÉCULO XX

21-01-2017 19:24

Quando não conseguimos explicar os eventos ocorridos no mundo que habitamos, ou quando eles ultrapassam, questionam concepções ideológicas,  e até mesmo “fogem” às nossas “certezas imediatas”, o mais comum que fazemos, talvez para nos mantermos no conforto do “nosso lugar comum” é negá-lo. Algumas pessoas lançam mão de argumentos religiosos para explicarem os acontecimentos e as transformações do mundo concreto no qual vivemos. Isso sempre ocorreu na história das sociedades, porém, as mudanças que presenciamos cotidianamente nas sociedades, o surgimento e aprimoramento das “novas tecnologias” e a comunicação global em tempo real fazem com que, muitas vezes, pensemos: “Onde iremos parar? Aquilo que temos como certeza, pode não ser certeza daqui a um tempo”. Esses processos podem ser explicados como “pós-modernos”, ou, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), “tempos líquidos”. O pensador Karl Marx já havia nos alertado para esses efeitos do desenvolvimento capitalista há 169 na sua obra Manifesto Comunista, de 1848, com a seguinte frase: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”.

Faço esse contexto, pois ontem, 20/01/2017, o bilionário e empresário norte-americano Donald Trump assumiu oficialmente a presidência dos EUA para um mandato de quatro anos e muitas incertezas afligem o mundo todo, diante das “políticas protecionistas” defendidas por ele em campanha presidencial, na defesa absoluta dos interesses econômicos e sociais da “América”. Pois bem, o objetivo desse texto é uma tentativa de “acalmar os ânimos”, contextualizando através de argumentos econômicos, reais do sistema capitalista (Trump é um MEGAEMPRESÁRIO.) para mostrar que a eleição de Donald Trump e o seu governo fazem parte de algo maior: “O desespero de uma nação em declínio, saudosista por um tempo que não existe mais”. O “populismo empresarial” dele representa isso.

Para entendermos essa afirmação e a tese que defendo aqui importante destacar dois pontos: O que foi os EUA no século XX, construindo o “sonho americano” e o contexto econômico e político global da sociedade atual.

Uma das características da geopolítica mundial do século XX é a construção da hegemonia dos EUA em todo o mundo. Isso ocorreu de diversas formas e em várias esferas da vida social, entretanto, destacarei duas: A produção de automóveis (Ford e GM) e a Indústria da cultura. Ambas foram cruciais para a política externa norte-americana do século XX e sua hegemonia mundial, pois, mediante “metralhadoras publicitárias”, levou o american way of life, ou seja, o estilo de vida norte-americano ao mundo todo, despertando desejos e anseios nas pessoas a quererem ter o mesmo padrão de vida e consumo, esquecendo-se que, no sistema capitalista existe aquilo que Leon Trótsky definiu como “desenvolvimento desigual e combinado”. Para haver “ilhas de felicidade” onde poucos enriquecem, existem milhões de pessoas que passam fome, trabalhando “de sol a sol” para ganhar um mísero salário e, dentro da “divisão internacional do trabalho”, sustentarem o alto padrão de vida dos países ricos, principalmente dos norte-americanos. Essa foi a essência do alto padrão de vida e de consumo dos norte-americanos no século passado, principalmente da classe média, pois o “bombardeio midiático” de Donald Trump foi para essa camada da sociedade, vendendo no século XXI ilusões do “sonho americano” do século XX.

Outro ponto que quero desenvolver para desmontar o, assim chamado, “furacão Trump” é o contexto econômico e político do mundo atual. Vamos lá. A partir de 1990 surgiram com maior frequência no cenário global as empresas “multinacionais”, principalmente as empresas “transnacionais” que, além de terem “filiais de distribuição” no mundo todo como as “multinacionais”, obtêm um “modelo de fábrica” flexível, capaz de “montar e desmontar” suas fábricas ao redor do mundo num piscar de olhos, pois as tecnologias produtivas permitem essa flexibilidade na produção de mercadorias (Para saber mais, ler o livro A mundialização do capital do economista francês François Chesnais). Junto a esse processo, intensificou-se outro: a DIT (Divisão Internacional do Trabalho). Essa divisão consiste em dividir as etapas de produção, que no século XIX e boa parte do século XX, eram realizadas, na sua grande maioria, dentro de um mesmo país. Agora se produz uma parte da mercadoria num determinado país, outra parte em outro e assim por diante. É a “mercadoria globalizada”, tanto na sua produção quanto na sua distribuição e consumo. Ter a DIT como “pano de fundo” é importante para o entendimento do cenário mundial.

A “grande fábrica” do mundo, hoje, é a China e demais países asiáticos. Custos baixos e exploração da mão-de-obra são um dos principais motivos pelos quais o “capital produtivo mundial”, inclusive o norte-americano (Vejam os casos da Apple e da Nike, por exemplo) migrou para lá. O grande capital procura sempre maximizar os lucros e reduzir os custos. Essa é uma das “leis fundamentais” da economia capitalista e que o bilionário populista, “aprendiz de ditador” Donald Trump, nas palavras do megainvestidor George Soros presente na reunião do Fórum Econômico e Mundial 2017, em Davos nos Alpes suíços (Reunião dos grandes capitalistas para discutir a economia mundial). Ver mais em: www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/01/1851492-trump-e-aprendiz-de-ditador-diz-o-megainvestidor-george-soros.shtml. Em outras palavras, como também é empresário e zela pelos seus interesses econômicos, o novo presidente norte-americano terá dificuldades (Se é que fará!) para convencer as empresas norte-americanas a voltar a produzirem nos EUA, pois geraria um impacto na economia global e aumentaria os custos de fabricação do produto (para agradar os trabalhadores da classe média branca norte-americana). Regra capitalista: “aumento dos custos de produção, aumento no valor final do produto”. Isso ocorrendo, as vendas diminuirão, mesmo porque as outras empresas que mantiverem as suas fábricas na China e Ásia terão um valor final das suas mercadorias menores e, assim, venderão mais. Tudo isso para dizer que Trump não retirará as empresas norte-americanas da Ásia.

Alguns pontos não foram abordados, como a questão dos latinos, a questão dos refugiados e as relações dos EUA com o restante do mundo. Esse texto concentrou-se numa parte da política econômica de Donald Trump apresentada em campanha, que criou uma expectativa saudosista dos eleitores da classe média branca e reacionária: Voltar aos “tempos dourados” da vida norte-americana. Como desenvolvido no texto, isso é uma falácia populista de um show-man e um desconhecimento do funcionamento da economia global. Uma tentativa desesperada de um império em declínio para retomar a sua liderança hegemônica no cenário mundial. É o retorno ao século XX. Um fiasco antecipado.

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