O RALO DAS RELAÇÕES SOCIAIS OU NAQUILO QUE A HUMANIDADE TORNOU-SE

28-01-2015 16:48

Existe alguma natureza (essência) humana que permeia a todos os “Homo sapiens”, dos que já se foram aos vindouros? Se não, por quê? Se sim, qual? É constituinte de todos os seres ou apenas os privilegiados tem essa prerrogativa? O homem influencia ou é influenciado pelo meio social? Os dois? Perguntas como essas moveram, movem e moverão milhares neurônios de diversos pensadores, utilizando milhões de letras na tentativa vã de descobrir tal essência humana.

O filme “O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia, lançado em 2007, baseado no romance homônimo de Lourenço Mutarelli, nos incita a pensar essas determinadas questões. Nele, grosso modo, um Homem, personagem vivido por Selton Mello, frustrado e com problemas nos relacionamentos, utiliza-se dos seus artifícios de poder financeiros para se sobrepor às outras pessoas e subjugá-las aos seus interesses. Nesse jogo social de interesses, no qual o “ter” vale mais que o “ser”, é que o diretor do longa-metragem vai dissecando as relações humanas na nossa sociedade atual. A metáfora da película permite nos questionarmos acerca da essência humana. Numa primeira análise pode perceber-se que os Homens são maus, podres por natureza, pois é isso que o filme afirma claramente. Será que é assim mesmo? Não há solução?

Sob um prisma ideológico e intelectual distinto do que permeia o filme, o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), analisando a sociedade capitalista, assevera que tudo é transformado em mercadorias ($), porque o que vale para o sistema capitalista é o “ter”, em detrimento do ”ser”. Nisso as relações sociais também são calcadas na lógica do capital. Para Marx, esse é um dos piores legados do capitalismo: a humanidade desumana e alienada, somente se relacionando por interesses financeiros. Com isso, o intelectual alemão mostra-nos que a humanidade tornou-se assim, desumana, podre, como aborda o longa-metragem e não o contrário, ou seja, que ela seja ruim por essência.

Ilações com o filme são necessárias, tais como: “Deus”, “Homem” e o “Trabalho”. Numa cena, na qual Lourenço, personagem principal, conversa com seu segurança e diz: “O Homem é o Deus da comodidade”. E é! Na crença cristã Deus, após Eva ter caído nas seduções da serpente, condena Adão (o Homem) ao trabalho: “Viverá do suor do seu rosto”. O que isso significa? Significa que o Homem, mediante o seu trabalho - relação Homem x Natureza – construiu, constrói e construirá, coletivamente, o mundo/a sociedade conforme a “sua imagem e semelhança”. Portanto, o mundo social (a sociedade) é o “Mundo dos Homens”. Assim, toda essa comodidade que o Homem criou é fruto do seu trabalho, esforço vital. Nada mais que isso!

Para finalizar, uma reflexão sobre o que fazer para sair do círculo vicioso que o filme nos aponta. Como um diagnóstico real, atual das relações humanas “O Cheiro do Ralo” é extremamente positivo. Contudo, peca ao indicar, nas entrelinhas, a “podridão do ralo humano” como algo intrínseco à natureza/essência humana. Por mais que concordemos que o Homem seja o algoz de si mesmo e da natureza, poluindo o meio ambiente, colocando em risco de extinção a fauna e a flora e - o que é pior – a vida no planeta Terra; não há possibilidade de se ter uma saída (salvação?!) a isso que não seja humana, por tudo o que foi descrito acima.

A luta por outra sociedade passa por essa mesma sociedade, com esses mesmos seres humanos, com suas qualidades e idiossincrasias. Não há nenhuma possibilidade de mudança fora do mundo humano, nem por divindade, muito menos por um “super-homem”.

 

Referência

Filme: O cheiro do ralo

Direção: Heitor Dhalia

Gênero: Drama

Duração: 112 minutos

País: Brasil

Ano: 2006

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