O SUAVE VENENO DA MORAL

22-01-2015 13:30

O que é a Moral? Como surgiu? Para que e a quem serve? São questionamentos que, desde os primórdios da humanidade até os dias atuais – e, muito provavelmente, nos tempos futuros -, permeiam e inquietam, juntamente com a Ética, os Homens, baseando todas as relações em sociedade. Diferente dos outros animais, o Homem é o único ser que pensa e que vive em sociedade; justamente por isso, possui personalidade própria, gostos individuais, maneiras diferentes de enxergar o mundo e o ambiente social em volta, muitas vezes, entrando em choque com os outros indivíduos.

Os filósofos gregos do mundo antigo definiam, em sucintas palavras, moral como um conjunto de regras e leis convencionadas, mediantes escrituras legais ou não, socialmente que tem, por intermédio, organizar a vida em sociedade e, aí que está o eixo central dessa crônica, evitar o que o filósofo Hobbes definiu como a “guerra de todos contra todos” e, consequentemente, a necessidade de um Estado para inibir isso.

O escritor, prêmio Nobel de literatura, Gabriel Garcia Márquez contribui de maneira genial e única para essa discussão no livro, intitulado “O veneno da madrugada (A má hora)”, publicado, originalmente, em 1961. Nessa obra, o autor colombiano apresenta um pequeno povoado que vive, como todo o país, a transição de um regime político autoritário para um democrático, com todas as incertezas que um período assim enseja e como as relações humanas e o “caldo moral cultural” se comportam com isso. É nesse ínterim que gostaria de me deter para as reflexões acerca do tema da moral, mais especificamente, no que tange à moral política, à moral social e a coerção que há entre uma e outra, para no fim, esboçar uma ilação com o cotidiano da educação e a polícia.

Num governo autoritário o controle social e político da população é enorme (direto), juntamente com a vigilância de um indivíduo pelo outro na sociedade, agindo, muitas vezes, como espião e delator voluntário para a manutenção da “ordem”. Num governo democrático, o controle social e político é indireto sob a égide das liberdades individuais, controladas e fiscalizadas pela letra de lei constitucional, necessária para a convivência social, exercidas pelo Estado, evitando, contudo, o que Hobbes tanto temia. Entretanto, na mudança de um regime político autoritário para um regime democrático não é simples - e aqui me baseio nas contribuições de Garcia Márquez -, pelo simples fato de que as instituições e as pessoas que as representam e as fazem funcionar são as mesmas, com suas crenças, ideologias, idiossincrasias e comportamentos sociais. Assim, fazer essa transição sem levar em conta isso e a necessidade de mudá-las, por intermédio da educação e informação, é inevitável para um regime democrático pleno, no qual todos possam exercer a sua cidadania e requerê-la.

Por fim, uma ilação do descrito acima com a educação brasileira é importante, pois, mesmo passando-se trinta anos do regime ditatorial brasileiro, há continuidades autoritárias no cotidiano das instituições e nas práticas sociais das pessoas na educação e na polícia brasileiras.

 

Referência

Livro: O veneno da madrugada (A má hora)

Autor: Gabriel Garcia Márquez

Assunto: Literatura estrangeira

Idioma: Português

Ano: 1962

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