RUTH CARDOSO E SEU TEMPO

21-01-2013 19:10
Acredito que muitos colegas que cursaram Ciências Sociais não tenham tido contato com uma obra ou artigo da antropóloga brasileira Ruth Cardoso, esposa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (Nem tudo é perfeito!). No ano passado tive ...acesso ao livro, abaixo citado, que reúne os diversos artigos publicados por ela. Ao lê-lo é impossível a não ressonância com as aulas da Irene e do Marcos Rufino para quem estudou na Escola de Sociologia e Política.
Ruth é uma antropóloga que caminha sem nenhum problema entre as análises de campo, marca da Antropologia e as teorias mais gerais, marca da Sociologia e, principalmente, da Ciência Política. No final dos anos 1970 e toda a década de 1980 ela, através de inúmeros artigos e conferências fez a fusão e diagnosticou aquilo que ficou conhecido como "os novos movimentos sociais" que trouxe à luz da sociedade e da teoria sociológica questões dos pequenos grupos sociais (negros, mulheres e gays) que, por suas lutas cotidianas, exigiam a democratização do Estado e direitos de cidadania que se "cristalizaram" - para usar um termo que Ruth usava bastante - na Carta Constitucional de 1988.
No entanto, como ela mesma afirmava com todas as letras nos textos que compõem a Unid. 5 do livro que discute "movimentos sociais, Estado e democracia", sua visão era de uma "liberal clássica" no estilo europeu, que via nessa corrente filosófica, econômica e política o ideal de "justiça social" e fez nascer o conceito moderno de "cidadania" (ainda hoje caminhamos no Brasil e na América latina para colocar esse "ideal democrático" em prática, sendo que na Europa atual em crise esse mesmo ideal democrático de paz perpétua e de felicidade capitalista está indo por água abaixo). Isso só vem corroborar o quão atrasado o Brasil está e quão tacanha e imbecil é a nossa burguesia, pois os "direitos que recheiam a cidadania moderna" foram positivos e sempre visto com bons olhos pelas classes dominantes dos países ricos, nos quais os princípios do liberalismo clássico nasceram, cresceram, consolidaram-se e expandiram-se pelo resto do mundo durante o século XX. Já aqui no nosso país sempre foi visto e defendido pela esquerda (Ex.: Reforma agrária. Bandeira liberal na Europa e bandeira da esquerda no Brasil e na Améria latina).
Lembro isso, pois toda a discussão de Ruth Cardoso - sem descrédito, apenas mostrando o ponto de vista de classe da autora - sobre os movimentos sociais (tradicionais e novos) está permeada de um viés "politicista". Ou seja, a autora, utilizando-se da crítica sociológica, percebia e defendia nessas lutas sociais e na mobilização das massas populares uma maior participação política dentro do Estado e não o questionamento das estruturas de dominação existentes desde o tempos colonais na sociedade brasileira, aproveitando essa nova energia trazida por esses movimentos. Ex.: a posse da terra. Por isso, diz-se que é politicista.
Toda esa reflexão fez-se necessária para relembrar Ruth Cardoso e o contexto histórico no qual sua produção está baseada.

Ao fim e ao cabo, o livro é mais do que recomendado para leitores nada ou pouco familiarizados com a obra dessa antropóloga.
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