BLACK MIRROR: TECNOLOGIA E SOCIEDADE

05-08-2018 16:23

Como vai ser o futuro? Como a humanidade estará daqui há 10, 20 ou 50 anos? Como? Como? Questionamentos deste tipo são intrínsecos ao fazer humano, a nossa forma de existir e perpetuar a espécie. Essa curiosidade em pensar “como será o futuro” que nós, humanos, temos é uma forma de legitimação de nossas ações no tempo presente, dando significado para elas e confortando estes seres mortais de natureza controladora. Por outro lado, essa curiosidade pode nos deixar mais perturbados e angustiados com aquilo que a raça humana fez até agora e “para onde isso vai dar”.

O gênero artístico “ficção científica” (literatura, cinema e, atualmente, séries) é uma das principais maneiras que o Homem criou para contar e mostrar como será a nossa vida no futuro, sobre “aquilo que nos espera”. Passado, presente e futuro, juntamente com distopias sociais, são temas muito candentes deste gênero, possibilitando risos, encantamentos, preocupações e decepções.

É neste contexto que a série britânica “Black Mirror”, da empresa cultural “Netflix”, se encaixa. Com uma dose bem temperada de drama, a ficção científica ganha proporções assustadoras e acende o sinal de alerta sobre vários temas. Contando histórias distópicas a princípio aleatórias, mas que se conectam entre si ao longo das temporadas, acerca do modo como nos relacionamos com a tecnologia, como ela está, a cada dia mais, presente no nosso cotidiano e a quais grupos econômicos e sociais ela interessa, “Black Mirror” é uma das séries mais encantadoras que existe. Numa “bela sacada do seu criador e dos roteiristas”, ela tem o poder de “nos colocar dentro dela”, de permitir com que os seus expectadores assistam aos episódios angustiados e que sofrem com os percursos e os destinos das personagens, pois a mensagem central de “Black Mirror”, para este escritor, é fazer com que cada uma das pessoas que assiste se identifique com um ou mais personagens e, principalmente, se reconheça no drama mostrado, refletindo sobre a sua relação com a tecnologia. Talvez esteja aí a perturbação e a paixão que a série desperta, ao ponto de tornar-se adjetivo. É comum no meio dos seus expectadores utilizar-se da expressão (Isso é muito black mirror!) para destacar alguma cena do cotidiano envolvendo tecnologia e vida social.

Ao destacar o “perfil cada vez mais tecnológico do mundo contemporâneo”, a série acaba “naturalizando” o fenômeno da tecnologia e as condições econômicas e sociais de sua produção nos últimos 300 anos. E, o que é pior, ela “endeusa”, “torna religiosa” a tecnologia, como se estivesse pairando acima das cabeças dos seres humanos, como se a sociedade não tivesse nenhum controle sobre a mesma, se relacionando com ela pela “adoração”.

Essa reflexão tem que ser realizada, pois enfatiza o lado perigoso e niilista da série, ao apontar que “não há solução”. Assim, por mais “tecnológica” e “autônoma” que seja uma mercadoria, ela é uma “inteligência artificial”, portanto, limitada. Em outras palavras – o que é o mesmo -, ela é uma criação humana como toda e qualquer mercadoria que está dentro de um processo histórico (material) e social de produção capitalista e alienante de mercadorias, onde o “produtor (trabalhador) não se reconhece naquilo que produz”, “não reconhece a mercadoria como contendo parte sua, parte da generalidade humana e do conhecimento historicamente acumulado”, onde “a criatura domina o criador”, como alertado pelo pensador Karl Marx.

As mercadorias tecnológicas com suas “inteligências artificiais”, cada vez mais presente na nossa vida social, são “criações humanas”, “criações de seres humanos concretos, reais”. Isto tem que ficar claro para percebermos que a tecnologia não é um “bicho de 7 cabeças” que nos domina e nos foge de controle. Pelo contrário, ela é reflexo, efeito aparente que reflete uma situação de desigualdade e alienação, como uma das várias formas de dominação existentes.

 

Referência

Série: Black Mirror                           

Criação: Charlie Brooker

Gênero: Drama e Ficção científica

País: Grâ-Bretanha

Ano inicial: 2011

 

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Foto utilizada com a permissão da Creative Commons Michael Seeley, Kiwi Tom  © 2010 Todos os direitos reservados.