DESABAFO DE UM TRABALHADOR QUE LÊ

15-04-2018 23:36

Este texto não pretende polemizar com pessoas a favor, ou não, do ex-presidente e líder político, Lula. Muito menos ser portador da “análise final”, se é que posso chamar desta forma. O objetivo deste humilde escritor é organizar as suas próprias ideias acerca da prisão de Lula e o que isto representa dentro da história brasileira recente.

Em 2002, quando o PT chegou ao poder político nacional, a classe trabalhadora vivia a esperança de ter um “filho da pobreza” (Alguém como nós!) representando, de fato, os interesses da população sofrida e historicamente marginalizada. O entusiasmo era tanto que, após o anúncio oficial da vitória nas eleições, Lula afirma: “A esperança venceu o medo!” A eleição de Lula era para a classe trabalhadora, mas também, para setores da classe média intelectualizada, adepta do campo progressista, uma possível “virada de 180º” na política brasileira, de um governo que alguns achavam, mesmo a “Carta ao povo brasileiro” sendo escrita e anunciando que nenhum contrato com o mercado financeiro seria rompido, que seria contra os interesses do grande capital.

Ao chegar no poder, Lula e o PT não rompeu com o grande capital, muito pelo contrário. Fez um governo de “conciliação de classes” entre ricos e pobres, sob a unção da liderança política do ex-metalúrgico. A classe dominante enriqueceu como “nunca antes na história deste país”, em consonância com programs de distribuição de renda para a população pobre e o aumento do emprego. Isto foi um erro? E é nisso que reside o posicionamento deste autor.

Não, não foi um erro o PT governar através de alianças políticas e econômicas. Foi a decisão política tomada naquele contexto histórico. O filósofo húngaro István Mészáros, no decorrer da sua obra intelectual, afirma que a política, especificamente a “política de transição socialista”, necessita de mediações. De fato, o PT nunca objetivou uma transição socialista, como alguns setores da direita defende. No entanto, como Mészáros nos esnina: política se faz nas mediações. A alternativa de Lula e do PT foi governar com o capital, todavia, distribuindo renda para a população mais pobre e ampliando o emprego, por exemplo. Ou seja, os governos petistas incluíram setores pobres da população brasileira, não apenas do nordeste, na economia de mercado capitalista, onde a “produção em massa e o consumo em massa” é dominante. A população brasileira obteve por um período de tempo o mínimo de dignidade, usufruindo, mesmo que em condições precárias, da civilização burguesa e dos direitos da cidadania liberal, proclamada na Constituição Federal de 1988.

Ora, mas isso é tão básico, pode dizer alguns. Pois é! Extremamente básico, mas estudando a história brasileira e o “dna” escravocrata e conservador da elite brasileira, que o sociólogo Jessé Souza intitula “A elite do atraso”, nome do seu recente livro, propiciar condições mínimas da civilização burguesa para uma população historicamente marginalizada, não é e não deve ser algo desprezado, mesmo com todas as devidas críticas aos governos do PT e aos limites impostos pela burguesia nacional.

Com o impeachment de Dilma e com a prisão de Lula, encerra um ciclo na política brasileira, o fim de uma política de conciliação de classes; ou seja, o mínimo da democracia liberal burguesa que este país de origem colonial viveu, com setores marginalizados da população obtendo condições mínimas de dignidade humana. Pesquisas internacionais mostravam que, nesta época, o povo brasileiro era feliz e esperançoso.

Sendo assim, Lula e o PT merecem inúmeras críticas diante dos limites de sua política. Porém, não devemos pactuar com a prisão de Lula. E não estou afirmando que seja santo, mas é claro que o seu processo judicial tornou-se um julgamento político, onde os juízes, por demasiadas vezes, explicitavam a necessidade de prender Lula e retirá-lo das eleições de 2018.

A batalha está perdida momentaneamente, mas a luta continua!!

 

P.S.: Pessoalmente, me entristece a prisão de Lula. Simbolicamente, representa o encarceramento da população mais pobre deste país, por uma direita conservadora e de origem escravocrata. Me formei política e intelectualamente durante o governo Lula. Mesmo com todas as críticas aos limites políticos do PT, sempre votei, no segundo turno das eleições gerais, no partido (No primeiro turno votava em outras legendas). Para mim, política se faz com possibilidades reais, concretas. Em outras palavras, lutava e luto por uma política de transição socialista, mas apoiava o governo do PT, pois sem condições mínimas para a população, não se faz revolução. Neste ponto, me diferencio de setores da esquerda que defendem a tese de que “quanto mais exploração e pobreza, a população vai se rebelar contra o sistema”. A história nos ensina que isso nunca aconteceu.

Por que essa ressalva toda? Quem me conhece, de fato, sabe o quanto me incomoda e me deixa indignado ver a atual situação do Brasil, na qual parcelas da classe trabalhadora, que somente vende a sua força de trabalho e não possui meios de produção, apoia a prisão de Lula e a tese da direita de ódio ao PT, ao Lula e à esquerda. São lacaios da classe dominante, que serão, na próxima esquina da história brasileira, dispensados pela mesma.

 

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