UMA ALTERNATIVA PARA A MÚSICA CONTEMPORÂNEA

22-04-2018 23:18

O tamanho de conteúdo subjetivo impresso no momento de realizar-se uma apreciação musical de acordo com os padrões estéticos com os quais estamos já profundamente vinculados e envolvidos desde a mais tenra idade é deveras pungente e determinante quanto àquilo a que preferimos jogar, sem pensar duas vezes nas “colunas” imaginárias do “útil” e “inútil” para nós. O que escutamos musicalmente e os gostos que viemos as expressar nas diversas fases da vida pelas quais qualquer um de nós está sujeito a passar, são uma clara mostra do que somos e, principalmente, do que sentimos atrelado indissociavelmente àquilo que fomos “programados” para ser enquanto humanos (seres animais e também sociais). Quanto à visão utilitária do caráter profano ou não profano que o seguir pelas veredas que tais e tais gostos impelem são sempre mais difíceis de definir e, principalmente, de generalizar o que pode muito bem representar uma inferência errônea sobre gosto musical.

O que talvez force com mais determinação uma pessoa rejeitar ou amar um gosto musical ao invés do outro, às vezes constituindo uma apreciação ou não de um gênero inteiro e não somente de uma música específica é a noção estritamente pessoal e privada, do que esta compreende por harmonia. Obviamente, tal compreensão pessoal muitas das vezes, arriscando dizer na maioria delas, está longe de se prestar dignamente consonante com o conceito de harmonia já há muito cultivado pelas academias musicais de ensino tradicional. Por isso, a noção pessoal do que vem a ser essa tal harmonia, que tem a capacidade de agradar ou não seu interlocutor, transcende qualquer via acadêmica explicitamente, rejeitada e muitas das vezes completamente desconhecida nos extratos socias menos abastados.

Apesar de mediante tal fato poderem ser feitas análises históricas que mostrem os estágios pelos quais a música passou até chegar ao que é hoje, tais análises, pouquíssimo esclarecer-nos-iam a respeito das dúvidas e conclusões que almejamos tirar sobre o porquê a música se tornou o que é hoje, e da forma como hoje é apreciada. E isso se deve, acredito-me, a essas análises não serem suficientes para esboçarem correlações lineares entre época e estilo musical enquadrado e caracterizado dentro dessa tal época como em um gráfico perfeitamente traçado. Porque apesar de um grande estilo de época profundamente arraigado numa sociedade ou em várias, ser um traço de suas características, só seria possível fazer uma correlação linear num período histórico que apesar de longo, é limitado quanto à região geográfica que foi capaz de abranger. Não é o mesmo analisar uma música em alta na Europa do século XVIII, como foram as composições contrapontísticas de Bach, e querer aplicar as conclusões disso num contexto sociocultural das Américas, julgando aquela como superior.   

Todavia, algo nos é bem explícito. Do Erudito ao Funk; da música de concerto ao show de Rock. Em que momento o passado está ligado ao presente? Ou nunca esteve?

Para responder a isso sem tentar cometer erros, propus-me a escrever sobre as impressões que tenho quanto ao que venha a ser harmonia, não a fim de julgar o que é a boa música, por enquanto, porque também acredito que dificilmente conseguiríamos dizer qual gênero é este gênero universalmente agradável. Não podemos forçar os outros a engolir o que queremos, senão eles acabam vomitando em cima de nós!

A definição formal de harmonia remonta a um conceito de que para ser harmônico, o som tem que apresentar consonância entre as notas de forma que estas provoquem no ouvinte sensação de agradabilidade. Não discordo quanto à definição conceitual do que é harmonia e sua implicação para a música, porém é evidente que quando esse conceito ganha estrutura material que o apóie, no caso, quando o som em questão transcorre pelas partículas do ar, vibrando até nossos tímpanos, percebemos que a noção de “agradabilidade” deixa de se um imperativo para que se ouça música ou mesmo para que se classifique aquele som digno de caráter musical.

A lógica desse fato que não é segredo ou pelo menos não o deveria ser para ninguém que tenha contato com as pérolas do mundo musical atual. A definição de harmonia está muito distante daquilo que um dia pensamos em estabelecer para nós mesmos e, então, começarmos a praticar por fim. A prática e teoria nunca se encaixaram bem para a maioria do público pela dificuldade de abstração sofrida por aquela. A maioria acha que ambos não se interligam e, por isso, conceitos, ideais como a harmonia, caem no esquecimento, ou mesmo são ao todo, aviltados quando entram em contato com a maioria do publico.

O consumo de música também não pode ser negligenciado para explicar a aceitação que esta tem por parte do público. Ouvir música atualmente, apesar de ser uma atividade que pode muito bem ser realizada no recanto do lar, não deixa de ser uma atividade também de consumo que por sua vez tem capacidade de gerar capital. Esse seja talvez um dos principais contrastes com o passado, pois a música com toda certeza perdeu sua importância como algo meramente contemplativo, passando a atividade de lucro e geração de renda. Cultura como produto do mercado, e não com um produto despretensioso, puro e inocente que vem das mãos de um povo produtor de cultura.

Ainda sobre a harmonia, fica explícita a crítica levando-se em consideração as definições, que o gênero Funk pode vir a ser amplamente criticado, justamente por não ser capaz de encaixar nos padrões adequados de sonoridade que confiram harmonia a músicas que produzidas dentro do gênero em questão.

Poluição sonora e cacofonia seriam os temos mais exatos para caracterizar o que a música vem se tornando, com principal ênfase e destaque para o século XX, onde a indústria cultural despontou e montou definitivamente os arcabouços práticos para a venda do conteúdo musical, nem sempre severamente adequados aos padrões de alta qualidade harmônicos, ou seja, aqueles mais próximos do ideal pela definição.

E dentro desses adjetivos infelizmente em voga é que tiro as conclusões de que não se pode falar em “evolução” da música pela música, como uma forma de arte pura e simples, primeiro por não poder haver uma correlação linear exata e precisa sobre como a música se projeta nas sociedades em que fazem sucesso, seu estilo, estética do compositor e sua época propriamente ditas, já que não são propriedades da natureza por isso não sendo universalmente aceitas. E segundo, não há nada lógico e empiricamente verificável no mundo da música, que permita concluir que um estilo de época precedente registre um momento histórico superior ou mesmo inferior para o estilo em voga no presente.

Mas cabe explicar que não há nenhuma forma de relativismo imbuída aqui. Apesar de não ser possível a meu ver fazer uma correlação histórica e de época para mostrar uma suposta “evolução” da música, com toda certeza argumento eu, fazer uma correlação qualitativa entre gêneros musicais diferenciados é possível sim, a fim de verificá-los dentro de suas lógicas de composição, quão adequados se mostram estes e o quanto mantém de fidedignidade técnica em relação aos conceitos musicais já universalmente validados e praticados pelos músicos profissionais. Evidentemente os gêneros populares seriam amplamente rejeitados, e quanto mais próximos do vulgo estivessem menos qualidade técnica teriam na hora de suas execuções instrumentais.

Portanto, a pretensão do texto não é desmoralizar um estilo musical pertencente a uma corrente da sociedade menos abastada, tampouco para dizer que merecem ser apedrejados por não cumprirem com as expectativas da academia musical tradicional. Toda revolução que traga bons frutos é bem vinda para o coletivo, mas obviamente só as tragam harmonia decente e cabível a nós interlocutores. Se deixarmos de inferiorizar o público, quem sabe ele não se supera!

 

Autor: Engel

Engel é um pensador! Um “pensador autônomo” e não “autômato”. O que isso significa? É óbvio que todos nós, humanos e seres sociais, somos influenciados pela história e pelo meio em que vivemos e, também, influenciamos diretamente nele. O que, por si só, coloca em dúvida a questão da “autonomia de pensamento”. Pois bem. A expressão “pensador autônomo” é aqui utilizada para enfatizar que Engel procura fugir (Se possível.) da superficialidade das “ideias verdadeiras”, investigando-as, contextualizando-as e refletindo sobre a originalidade e o impacto delas nos tempos atuais, à revelia do que há de hegemônico no mundo contemporâneo: o “pensamento autômato”, com absorção e reprodução sem a devida contestação. É a esse rigor de produção de conhecimento que se propõe o jovem intelectual provocador.

 
 

 

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